Janeiro mês da poesia

poesia

2 poemas magníficos do PJ para vocês queridos leitores do blog literagindo! Desfrute e aproveite essa noite:

UMA JANELA DE CHUVA

Uma janela de chuva branda
Pérolas do céu, sombras plangentes.

Oferece-me o teu abraço
Por inteiro, sem reticências
Aberto, perfeito, apertado
Como seres sencientes.

Não te oblitero as pulsações hílares
Nem te fecho a livre porta das planícies.

Horizonte compósito
Sensações pungentes
Na fauna que nos leva ao vento
Escrevemos mensagens
Entre os umbrais brancos.

Dentro de ti, assim, em mim
Oiço as escalas do piano
E engravido o sorriso novo.

 

A FLOR DO TEMPO.

Subo pelo pedúnculo da flor do tempo, sento-me confortavelmente numa das primeiras folhas, visivelmente amarelecida pela idade. Retiro do bolso das calças de fotógrafo da revista “National Geographic”, a carteira em cabedal com o cartão de sócio, respetivamente, do SLB, da SUP, outras coletividades e o meu pequeno paleógrafo.

Passo pelo Canto IX dos Lusíadas e acho-me na Ilha dos Amores, quando oiço a bela voz do poeta Luís Vaz de Camões, exatamente na estrofe 83: “Ó que famintos beijos na floresta; E que mimoso choro soava! Que afagos tão suaves, que ira honesta, Que em risinhos alegres se tornava! O que mais passam na manhã, e na sesta, Que Vénus com prazeres inflamava, Melhor é experimentá-lo que julgá-lo, Mas julgue-o quem não pode experimentá-lo.”

Fiquei a pensar: experimento-o ou julgo-o? Vejo-a voar, e eu “galinhando”, ou abro as asas, “sisnando” em voos rasantes sobre o mundo que me é dado? Observo, impávido, a passagem do tempo, ou viajo com ele ao sabor da aventura mais incrível que é a vida?

Nisto, ágil como as corsas, salto sobre muitas pétalas-seculares, envelhecidas, e apétalo no centro do ano 477 a.C. – em pleno mês de Adar (sua sorte é forte). A Festa de Purim estava no seu auge: sorteio. A rainha Ester irradiava beleza e felicidade na bela Susã, capital do império persa, ao lado do seu tio Mardoqueu, pois o seu povo fora salvo da morte. Folhe-ei várias vezes o meu velho paleógrafo para entender melhor o livro de Ester 9:22 – “(…) o mês que se lhes mudou de tristeza em alegria, e de luto em dia de festa, para que os fizessem dias de banquetes e de alegria, e de mandarem presentes uns aos outros, e dádivas aos pobres”.

Meditando nisto, voltei a enfiar na bolsinha de cabedal junto dos cartões de sócio das minhas coletividades, o mestre gráfico da paleografia, ao mesmo tempo que voava, regressando ao dia chamado hoje – 26 de Janeiro de 2017. Olho à minha volta e vejo os teus olhos brilhantes, belos, misteriosos no sorriso comprometido com a arte do saber-amar.

Declamo com suavidade: “Melhor é experimentá-lo que julgá-lo, e viver o dia de hoje como se fosse o mês de Adar: a força do amor e da bondade sobre a morte e a vingança que não vinga: na alma feliz de Ester, bem visível, na íris dos teus olhos-natureza.

 

Eu sou Lúcia Mara Formighieri, cega, graduada em Comunicação Social/Jornalismo há 12 anos e apaixonada por livros. Idealizadora deste blog, parceira e colunista no Congresso de Acessibilidade, Canal de Notícias, entre outros.

“O que eu posso fazer enquanto comunicadora, para transformar a vida das pessoas?

Com este questionamento, criei este Blog, Literagindo, para tratar de Literatura e Leitura Inclusivas!

Venha Literagir com a gente!