O Diário de Anne Frank em quadrinhos

 

imagem do quadrinho em que tem vários soldados e uma menina dormindo na cama

Quadrinho da novela gráfica ‘O Diário de Anne Frank’, de Ari Folman e David Polonsky

A protagonista, nos quadrinhos, parece mais real que a das velhas fotos em preto e branco. Às vezes parece de carne e osso, parece que a conhecemos desde sempre, uma vizinha ou alguém da família. Em sua adaptação de O Diário de Anne Frank, o cineasta e roteirista Ari Folman e o ilustrador David Polonsky conseguiram transpor para o formato de novela gráfica um texto que é um clássico da literatura contemporânea e um documento histórico sobre a perseguição aos judeus na Europa.

Os israelenses Folman e Polonsky, autores do documentário animado Valsa com Bashir, recuperam com traço claro e estilo direto a história extraordinária de oito judeus escondidos em um apartamento secreto na Amsterdã sob ocupação nazista.

Não há sangue no diário original de Anne Frank, publicado em 1947, nem no diário em quadrinhos que será lançado no Brasil em outubro pela editora Record. Não aparecem trens carregados de deportados nem câmaras de gás. É quase minimalista. Anne Frank conta o Holocausto sem contá-lo. A parte mais terrível – a detenção e os sete meses de peregrinação por campos de concentração e a morte da adolescente – não aparece no texto original: Anne Frank parou de escrever o diário antes de ser descoberta e, na versão em quadrinhos, é um breve epílogo escrito pelos autores.

A Anne Frank de Folman e Polonsky é real, é cotidiana. E se materializa em seus desenhos.

Reprodução do quadro o grito só que uma menina com a mão no rosto e espantada
Um quadrinho da novela gráfica ‘O Diário de Anne Frank’, de Ari Folman e David Polonsky

“É uma história cotidiana: o que significa passar dois anos escondido”, disse Folman ao EL PAÍS em Paris. Polonsky estava sentado ao lado dele. “E esperamos, de verdade, que os leitores possam fazer uma conexão com nossos tempos. Embora eu seja um pouco cético”.

“Isso aconteceu há 75 anos. E continua acontecendo”, prossegue Folman. “Nas zonas de guerra. No Oriente Médio. No Sudão do Sul. Em Burundi. [O Diário de Anne Frank] parece história antiga. Mas continua acontecendo”.

Um dos efeitos da leitura do novo O Diário de Anne Frank é desmitificar o ícone, aproximá-lo de leitores jovens que podem se sentir intimidados por uma obra que é canônica e de leitura obrigatória em muitas escolas, ou de leitores que desconhecem a história de Anne e a História do Holocausto.

Os próprios autores contam que leram o livro quando adolescentes, e que não captaram seu interesse. “Lemos na escola. Aos 14 anos você não entende seu potencial”, recorda Folman. “Li de novo quando a Fundação Anne Frank me contatou [para propor a adaptação para os quadrinhos], e a qualidade do livro me impressionou. Só depois de adulto entendi que se trata de uma obra-prima”.

“É uma grande escritora. Foi o que me impressionou quando a li depois de adulto”, concorda Polonsky.

Transpor as 330 páginas do diário em formato livro para as 148 páginas ilustradas e com pouco texto da novela gráfica obrigou os autores a “pensar de maneira cinematográfica”, diz Folman.

Folman e Polonsky se proibiram de traduzir para a linguagem dos quadrinhos a protagonista do texto original. Não tentaram imaginar como Anne Frank teria ilustrado seu diário. Transpor palavra por palavra todo o livro teria resultado em uma novela gráfica de 3.500 páginas e dez anos de trabalho. Tiveram que selecionar, sintetizar, contar por meio de desenhos e, às vezes, imaginar. Por exemplo, as trinta e tantas páginas dedicadas à relação entre Anne e sua irmã, Margot, resumem-se a uma só em que uma série de retratos justapostos de ambas, sem texto, mostram as diferenças abismais de caráter entre elas.

Outra peculiaridade da adaptação de Folman e Polonsky é que conserva em algumas páginas fragmentos inteiros do diário. “Eram [fragmentos] extraordinários, não tinha como mexer neles. Deviam permanecer intactos como pura literatura. E acredito que, quando se faz o que fizemos, é preciso lembrar o leitor: ‘Este é o original, você precisa ler’”, diz Folman.

Polonsky cresceu na União Soviética, onde não tinha ouvido falar de Anne Frank. Folman, filho de sobreviventes do Holocausto, cresceu em Israel. Seus pais chegaram às portas de Auschwitz no mesmo dia que a família Frank.

“Quando falamos do Holocausto, falamos de símbolos”, diz. “O holocausto era monocromático, preto e branco, a fotografia do menino no gueto de Varsóvia, a fome, as execuções, a tuberculose. E, para as pessoas que viveram aquilo, era tudo isso, mas também tornar-se adulto, ter a primeira namorada e dar o primeiro beijo da sua vida”.

E Anne Frank, como escreve o romancista francês Eric-Emmanuel Schmitt em uma edição recente do diário, era alguém que “cultivava a alegria mais que a tristeza, aquela alegria que Spinoza [outro judeu de Amsterdã] definia como ‘a passagem para uma perfeição maior’. “Não posso evitar pensar que Anne Frank, escandalosamente esmagada pela História, teve sucesso no que dependia dela: sua vida”.

Um quadrinho da novela gráfica ‘O Diário de Anne Frank’, de Ari Folman e David Polonsky
Um quadrinho da novela gráfica ‘O Diário de Anne Frank’, de Ari Folman e David Polonsky

E AGORA, O FILME

Ari Folman e David Polonsky, coautor de da versão em quadrinhos de O Diário de Anne Frank, estão preparando um filme de animação. Deve estar pronto em dois anos. Diferentemente dos quadrinhos, 60% do filme se passarão em nossa época, adianta Folman. A narradora é Kitty, a amiga imaginária que Anne Frank menciona em seu diário. Kitty lê o diário e vai revelando aos espectadores o que aconteceu com Anne. “O filme”, diz o roteirista, “é a busca de Kitty para provar que Anne está viva. Porque ela acredita que se ela estiver viva, Anne Frank, que a inventou, também está viva”. Trata-se de Anne Frank (Frankfurt, 1929 – Bergen-Belsen, 1945), a autora do diário íntimo que se tornou um clássico após ser descoberto ao final da Segunda Guerra Mundial, para um público atual e jovem. O filme, ao contrário dos quadrinhos, mostrará os últimos sete meses de Anne Frank, o périplo trágico pelos campos de concentração e sua morte aos 15 anos.

Fonte: EL PAÍS

Eu sou Lúcia Mara Formighieri, cega, graduada em Comunicação Social/Jornalismo há 12 anos e apaixonada por livros. Idealizadora deste blog, parceira e colunista no Congresso de Acessibilidade, Canal de Notícias, entre outros.

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