Que espaço tem a Literatura no Jornalismo amapaense?!

Literatura e Jornalismo

Eu adoro ler jornais do século XIX, hoje em dia tá muito difícil ler jornal

No Brasil do século XIX era inconcebível um jornal que não tivesse um espaço de destaque para a Literatura. Era reconhecidamente notável que os textos literários dos jornais dessa época (impressos) eram a grande atração. A principal pauta desse meio de comunicação e foco especial dos leitores.

Hoje em dia o jornal é tudo, menos espaço da Literatura. É o espaço da política, da ideologia, é o espaço de uma porção de coisas, menos espaço da Literatura (…).

É com esse trecho da entrevista à UNIVESP/TV, do historiador Sidney Chalhoub, que inicio minha reflexão sobre o espaço da Literatura no Jornalismo amapaense, ou porque não, a ausência desta.

No Brasil do século XIX era inconcebível um jornal que não tivesse um espaço de destaque para a Literatura. Era reconhecidamente notável que os textos literários dos jornais dessa época (impressos) eram a grande atração. A principal pauta desse meio de comunicação e foco especial dos leitores.

Tomando esse contexto como ponto de partida, ao que parece, o meio jornalístico amapaense está, há muito, no mínimo, negligenciando a produção literária, que por essas terras está agonizando por um pouco mais de espaço. Com algumas exceções, que são programas radiofônicos que dão algum espaço para a produção e veiculação de músicas de autores regionais. Pois são parte rica e importante da Literatura amapaense.

Foi escrevendo para jornais que, no século XIX, surgiria para o cenário da Literatura Brasileira o ‘Bruxo das palavras’ – Machado de Assis. Hoje um dos maiores literatos do mundo, considerado pela crítica mundial de mesma importância a nomes como William Shakespeare, Miguel de Cervantes, Dante Alighieri, Johann Goethe e Luís de Camões.

Pois bem, embora este Editorial não seja uma análise sobre Jornalismo, cabe, nesse contexto, alguns apontamentos pertinentes. Obviamente que desde o século XIX até os dias atuais o Jornalismo muito contribuiu nos diversos momentos da história e ajudou para a consolidação das liberdades de imprensa e expressão. Ressalvados alguns grandes jornais dos quais não devamos nos orgulhar em determinados períodos históricos de nossa República.

É graças ao jornalismo, à tecnologia e à dinamicidade da informação que faz com que todo o globo terrestre saiba, em tempo real, até um fato ocorrido, por exemplo, no extremo norte do Brasil. Entretanto, todo esse desenvolvimento parece ter engolido ou suprimido a Literatura dos jornais, impressos ou não. No amapá não poderia ser diferente. Deparamo-nos cada vez mais com reportagens, artigos e matéria rasos, sem a devida profundidade, textos que tediam o leitor nas primeiras linhas. Com toda essa velocidade de informações, as pessoas estão sendo cada vez mais bombardeadas com notícias, textos curtos. É preciso dosar esse fenômeno.

Se fizermos a experiência de perguntar a pelo menos cinco pessoas, qual foi a última vez que ele leu uma poesia, um conto ou mesmo uma boa crônica literária em um jornal amapaense, independentemente da plataforma de circulação; a resposta mais previsível será a de que nenhum deles tenha lido. E não é de surpreender, pois o foco desses meios de comunicação locais são, em sua esmagadora maioria, a política, a fugacidade e a velha e boa politicagem.

 

“A literatura, como toda arte, é uma confissão de que a vida não basta”

Fernando Pessoa

 

A Literatura amapaense, no meio jornalístico, parece atuar na clandestinidade, divulgados esporadicamente em alguns blogs e sites independentes e, mídias alternativas, raras vezes, aparecem em jornais de grande alcance e na grande mídia. Mais vale gastar palavras e imagens com o roubo, a rua esburacada, o político fazendo “caridade”, fatos frívolos, do que publicar uma crônica de Fernando Canto, ou quem sabe algumas poesias de Herbert Emanuel.

Não é possível que nenhum diretor de jornalismo (rádio, tv, impresso) ou indivíduo dotado de poder de decisão do meio saiba que a Literatura é um dos meios pelos quais transformam a mente e a vida das pessoas, que a partir de textos literários pode-se também formar opinião e ter visões de mundo mais consistentes. Pode-se, inclusive, informar.

É uma leviandade afirmar que o amapaense não gosta de ler, possivelmente não deva ser a maioria, infelizmente. E esse exercício de leitura certamente é o que falta a muitos diretores de jornalismo, âncoras, jornalistas, entrevistadores, radialistas. Pois o que se percebe, impregnado em suas retóricas é uma superficialidade, redundância, falta de conhecimento e profundidade em assuntos básicos de interesse social. E pasmem, ainda os premiam com estatuetas douradas para inflar o ego e a vaidade desses pseudo-formadores de opinião.

Esse meio jornalístico/comunicação do qual me refiro, se assemelha ao nosso clima; onde metade do ano é de chuva e a outra é de sol. De um lado está quem defende a oposição e do outro a situação. E causa uma desesperança em saber que empresas de comunicação pertencerem a famílias de velhas figuras políticas. Mas não a percamos de todo, quero crer, embora com certa desconfiança, que não são todos os meios de comunicação que podemos pôr na mesma vala comum.

Esse cenário deve ser atribuído também aos empresários/empresas da comunicação, historicamente vinculados a partidos e políticos. Esse fato em si já é motivo para a também histórica descredibilidade do jornalismo amapaense, sobretudo o opinativo. A indiferença, a falta de respeito e valorização com o trabalhador da comunicação, faz com que o jornalista recém-formado saia da universidade para o nada. Pois não há mercado de trabalho sólido, tampouco estrutura e condições dignas para seguir carreira por essas bandas tucujus. “Mérito” daquele que conseguir um contrato numa equipe de assessoria de comunicação em um órgão público da vida.

Não obstante, podemos encontrar alguma produção literária de grande importância no Jornalismo do Amapá, é o caso livro “Adoradores do Sol – Novo textuário do mundo, de Fernando Canto, publicado em 2010, a obra é uma coletânea de textos publicados em jornais macapaenses de 2007 a 2009. É, sem dúvida, um suspiro de alívio para quem deseja explorar a Literatura (no meio jornalístico) como fonte de pesquisa para estudos científicos, ou mesmo para seu próprio crescimento intelectual.

Outro lado dessa moeda traz à baila outra questão – Muitas pessoas deviam se questionar; quantas vezes eu disse ou escrevi em redes sociais para transparecer mais legal e politizado Fora Temer! Golpistas! Seus coxinhas! Mortadelas! blá, blá, blá… E quantos livros eu já li esse ano?! Se a resposta caminhar no sentido de que leu mais livros, parabéns! És um chato a menos, embora não tenha mudado o sistema ou o Brasil. Contudo, no mínimo, já mudou sua própria mente. E isso já é um começo. Ratifico, a leitura de bons livros é um dos meios pelo qual transformam profundamente as pessoas.

Nessa perspectiva, apesar de ser um fato a produção literária amapaense não ter o espaço merecido nos meios de comunicação, isso não indica que essa mesma produção não esteja em pleno vapor. Ela é cada vez mais numerosa e em vários gêneros, só precisa de um pouco mais de apoio, divulgação e ser mais acessível ao grande público leitor.

O escritor, romancista e filósofo alemão Johann Goethe, nesse sentido, faz uma reflexão pertinente e que pode servir também como alerta; “O declínio da literatura indica o declínio de uma nação”. E assim vamos caminhando aplaudindo políticas públicas medíocres e paliativas, característica de um Brasil que historicamente não prioriza a Educação, tampouco quem deveria ter a devida valorização nesse processo, o professor.

Mas quem se importa com isso?! Quem se importa em inserir e divulgar Literatura no meio jornalístico do Estado do Amapá! Que retorno isso daria ao empresário da comunicação, decerto não o esperado. Mas seguramente constituiria, a médio/longo prazo, uma sociedade mais crítica, com cidadãos capazes de fazer a escolhas mais inteligentes em momento decisivos, pessoas com capacidade em dar soluções mais criativas para os problemas do seu dia a dia. Entre outras habilidades que só a leitura proporciona.

Despeço-me, caro leitor, redundantemente voltando ao início, não para repeti-lo, mas para usar da mesma referência – Concordo , portanto, com o professor Sidney Chalhoub quando afirma que; “Hoje em dia os jornais ficcionalizam querendo dar impressão de neutralidade, é ideologia pura com pouca autoconsciência. Eu adoro ler jornais do século XIX, hoje em dia tá muito difícil ler jornal”.

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Fonte: Opinião e palavras

Eu sou Lúcia Mara Formighieri, cega, graduada em Comunicação Social/Jornalismo há 12 anos e apaixonada por livros. Idealizadora deste blog, parceira e colunista no Congresso de Acessibilidade, Canal de Notícias, entre outros.

“O que eu posso fazer enquanto comunicadora, para transformar a vida das pessoas?

Com este questionamento, criei este Blog, Literagindo, para tratar de Literatura e Leitura Inclusivas!

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